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DEUS DOS VIVOS!

A resposta oferecida por Jesus aos seus interlocutores gerou profundo silêncio nos seus ouvintes. Alguns escribas, expert em copiar os manuscritos sagrados murmuraram: “Mestre, disseste bem” Lucas 20:38. Acostumados a copiar os textos, sem neles refletir, sentem-se confrontados a melhor examinar o seu trabalho. Integravam a gama inumerável dos que com o tempo, de tanto manusear o texto sagrado, ou o sagrado em si, perdem a sensibilidade com o cerne da mensagem. Repetem João 3:16 e Salmo 23:1, como canção popular, mas sem refletir no verdadeiro significado prático do repeteco. É bonito, dizem. Mas não gera modificação pratica. É triste quando decoramos o texto e desprezamos ou não nos sensibilizamos com a mensagem.

Aos saduceus foi imposto o silêncio. A estapafúrdia história da mulher casada com sete irmãos, sem gerar filhos, era válida para os céticos que não raciocinavam. Jamais para confundir Jesus. O Mestre não se deixou levar pelo gracejo da piada inoportuna. Confrontou-os com a revelação Divina feita a Moisés, ante o espanto da sarça que ardia e não se consumia.

Deus fala. Evoca a veracidade de que a morte integra a experiência humana, enquanto persiste a existência da vida no universo material. Faz parte do fruto do pecado, aqui na Terra. Domina o mundo das coisas tangíveis, mas inexistente na esfera espiritual. O pó volta ao pó. O físico se corrói. Cansa. Envelhece. Desintegra-se. Deixa de existir, apesar dos esforços para eternizá-lo.

O espírito não passa por semelhante experiência. Procede de Deus, que desconhece a mortalidade. Permanece vivo após os estertores da morte física. Não dorme no pó da terra ou no túmulo. Mas consciente adentra o mundo dos “mortos”, onde em plena consciência passa a desfrutar a plena comunhão com Deus. Isto é, os que salvos por Cristo, os que foram redimidos por seu sangue. Em consciência plena aguardam o dia do retorno do Senhor Jesus, quando receberão o corpo da ressurreição. Portanto estão vivos na presença do Senhor e com o Senhor usufruem as delicias da salvação.

Esta verdade levou Jesus a responder aos céticos do seu tempo que Deus, não é Deus de mortos, mas de vivos. Razão simples. Deus desconhece a morte como experiência espiritual para os que O servem e com Ele mantém relação espiritual. Eles O servem em espírito e em verdade, João 4:24. O salvo por Cristo não está no pó da terra a aguardar ser despertado na volta de Cristo. Seu corpo, sim. Já que procede do pó, ao pó há que retornar. A consciência de relacionamento espiritual com Deus garante ao salvo a plenitude da vida.

Nesse estágio, tampouco depois, não há que se falar em casamentos. A comunicação, com os que permanecem vivos aqui na existência terrena, deixa de existir. As lembranças permanecem na memória dos que ainda não morreram. Mas não integra mais o existir dos que partiram para a eternidade.

A identidade no mundo dos mortos persiste. Por isso Deus é Deus de Abraão. De Isaque e de Jacó. Na transfiguração temos Moisés e Elias com identidade definida a conversar com Jesus. Não são entidades espirituais, mas pessoas com identidades próprias a usufruir as bênçãos celestiais.

A dimensão do mundo espiritual não pode ser compreendida a partir do conceito de materialidade. Impossível explicar a experiência dos que já morreram com o agir dos que ainda vivem neste planeta. Razão que levou Jesus a indagar dos saduceus: “Porventura não errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus?” Marcos 12:24. Casamento, relacionamento físico, mágoas, ressentimentos, vinganças, tristezas, doenças, dor e toda a gama, quase infinda, que alteram o comportamento humano aqui na terra, não existirão no mundo espiritual. Apocalipse 7:14-17 e 21:4-5. Não haverá acertos de contas entre os salvos nos céus. Tudo o que se relaciona com o mundo material ficará aqui, antes do túmulo. Nada levaremos. Eclesiastes 5:15. É considerado louco, diz Jesus, os que admitem materialidade no mundo espiritual, Lucas 12:20.

Perdemos muito da vida cristã verdadeira quando permitimos lucubrações a respeito dos mortos. Tentar descobrir como estão nossos entes queridos. Se estão vendo o agir dos vivos. Buscar comunicação com os que já morreram, significa total desconhecimento do que seja o espírito. Aguardar que voltem para ocupar o lugar vazio que deixaram. Ser dominado por tristeza continua, testifica que ainda não conseguimos compreender a comunhão da alma com Deus. Paulo, o apóstolo, ao tentar consolar os enlutados na Igreja em Tessalônica diz: “não quero que sejais ignorantes”, 1ª Tessalonicenses 4:13. A tristeza incontida é fruto do desconhecimento do poder de Deus. Não permita que a tristeza em demasia, às vezes fruto do sentimento de culpa, do que não se fez pelo morto, enquanto vivo, ofusque a convicção de que nossos mortos estão vivos. E bem vivos, na presença de Deus. Caso tenham tido verdadeira experiência de salvação com Cristo.

Tal convicção deu aos salvos do passado a certeza de que a morte é bem-vinda. Não se trata de megera faminta a gerar horror ao se apresentar ao moribundo. Encontramos textos bíblicos belíssimos em que os salvos encararam a morte com naturalidade e como oportunidade de adentrar à presença de Deus. Pedro diz: “eu sei que brevemente vou deixar este tabernáculo” 2ª Pedro 1:14. Não há medo ou desespero. Apenas a despedida de alguém que muda para uma residência melhor, sem levar a mobília antiga. Paulo fala da expectativa de ir ao encontro de Cristo: “Tenho desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda melhor”. Filipenses 1:23. O apóstolo nos oferece a convicção de transferir–se para algo melhor. Sem ficar vagueando no ar. Sem passar por purgatórios. Sem retorno. Mas sim estar com Cristo, e, com o Mestre se relacionar espiritualmente.

É comovente a descrição que a Bíblia faz da morte de Arão. Deus diz que o velho sacerdote seria recolhido aos seus antepassados. A cerimônia de desvestir das vestes sacerdotais e transferi-las ao filho Eleazar. O retorno de Moisés e Eleazar ao acampamento, sem Arão. A conclusão do escritor: “e morreu Arão ali sobre o cume do monte”, Números 20:28, emociona. Há um relato de beleza na morte do velho sacerdote. Sem dor. Sem lamentos. Sem questionamentos. Deixa a casa de barro e parte para usufruir de modo completo a Canaã celestial. Há beleza na morte do salvo.

Não menos empolgante é o relato da morte de Moisés. A data lhe é antecipada. O Senhor mostra-lhe a terra prometida. Relembra-lhe por que não entraria em Canaã. O encontro do homem que falava com Deus face a face. A sós, Deus e Moisés. Moisés e Deus. A morte chega para levar seu corpo ao pó, mas o espírito parte para estar com o Senhor para sempre. Continua vivo, pois Deus é o Deus dos vivos. Há beleza indescritível nesse passar do mundo material para o mundo espiritual. A identificação plena da nossa alma com Deus. A morte é o fim das oportunidades terrenas. Mas ela nos enseja o privilégio do início da comunhão perfeita com o Senhor. Deus é o Deus dos vivos. Para Deus todos estão vivos.


Pr. Julio Oliveira Sanches
Pastor da Igreja Batista Central de Sorocaba, Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, Bacharel em Ciências Jurídicas (Direito) pela Universidade Católica de Minas Gerais,Formou-se em Filosofia Pura, em 1976, pela Universidade Federal de Minas Gerais.

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